Atenção

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ler esse poema ao contrário

é muito importante

também é legal

ler de baixo para cima

as partes desconexas

e convexas

as partes côncavas

leia só as sílabas tônicas

então

o refrão

agora

as consoantes

primeiro só

o esquerdo e o direito

os lados diferentes

de tudo que já ocorreu

ao contrário

não é isso

não de baixo pra cima

você deveria

ler esse poema ao contrário.

Passantes

the-promenade-1918Nos olhamos

Nos conhecemos

Em rodas

de amigos de bar

de samba

Nos tornamos amigos

Ficamos frequentes

Dividimos gostos

Dúvidas

Fofocas ranzinzices

Nos tornamos íntimos

Nos tornamos companheiros

Nos fizemos companhia

Nos acompanhamos

Nos acobertamos

Passamos bons momentos

momentos difíceis

Nos resgatamos

do fundo do poco

da beira do abismo

Nos olhamos nos olhos

Juramos eternidade

Trocamos a juventude

pela senilidade

Pintamos o céu

de nuvens brancas

pensamentos coloridos

Comemos juntos

refeições de letras frases orações

Afiamos parafrases e eufemismos

Aprendemos a engolir a seco

engolimos

Encolhemos

Demos as mãos

Soltamos

Caminhamos

em direções opostas

Você acima

eu morro abaixo

No início nos abraçamos

Apertamos firmes as mãos

Sentimos a pele na pele

O couro duro brilhando à lágrima fresca

Nos afastamos

Distanciamos

Mudamos

Rumos endereços caminhos

No meio disso nos encontramos

Acenamos

Lembramos bons momentos

Acendemos um fogo esperançoso

no peito

Atropelamos e fomos atropelados

Pela inexorabilidade das tentações

Negamos

Aceitamos

Corremos em frente

Sempre em frente

Nos dividimos

Procrastinamos

Tropeçamos

em nós mesmos

nos afazeres

na pilha de documentos

nos egos

Trombamos jovialmente

Acenamos o amarelo dos dentes

Mordemos os lábios ressabiados

Pensamos

ora é só a pressa

Nos estranhamos

Nos constrangemos

Mas estamos mais sábios

Mais astutos

Mais ricos

Mais ricos

Ricos

Cultos

Nos olvidamos

Ainda se faz poemas em papel?

Malevich.black-square

Não há mais poesia de papel

Não se dobra um avião

Chapeu de soldado

barquinho

Não se dobra o papel ou esquina

pessoas não se dobram

Porque não há mais papel

Nem aqui nem na China

Nem na Venezuela há

Não se trata de substituir

Papel por tecnologia

Pois não é o papel que falta

sim poesia

Não há demanda em papel

Contratos despachos pastiche

Não há papel que me caiba

Nesse teatro de ourives

E o picadeiro prostrado

Não é de concreto ou papelão

Não há mais papel de palhaço

No pulpito central do salão

Estamos incomunicáveis

Acabaram as pranchetas

O papel machê

E o crepom

Nem o Manteiga salva

Até a seda queimou

Virou o pó papel

o discurso

Virou urro solitário

no vagão

tinha mirra,

Ouro

Incenso

E papel que acabou

Porque acabaram as árvores

De natal

Na verdade acabaram os poetas

Foram substituídos por Deuses

E seus filhos semi-deuses

por drones

Controlados por generais

Que deixaram de ser

Pois o papel de general findou

Agora somente o papel de faxineiro

O único que restou.

 

Este poema está um brinco, não?

Há quanto tempo

Melting_Clock09

Há quanto tempo não nos falamos

O tempo continua avançando adiante

sempre em frente

nunca acima ou abaixo

Nessa marcha contínua

nos empurrando

arrastando e afastando uns dos outros

É fácil culpar o tempo

indemonstrável e indizível

O fato é que todos corremos

a favor ou contra ele

e continuamos correndo

Eu mesmo corri tanto esses dias

Corro sozinho

e as vezes aposto uma corrida imaginária com alguém que nunca venço

Fico com medo de ultrapassá-lo

e perdê-lo

e perder aquele momento

e também de esmagar as pessoas com o trator temporal

Está um pôr do sol tão bonito

poucas nuvens

e aquela bola de fogo pairando sob o céu

Os dias têm sido tão bonitos pelo mundo afora

mesmo os chuvosos

Quando deito a cabeça no travesseiro

e fechando os olhos

vou afastando a visão do globo terrestre

Afasto-me até a Terra virar uma pequena parábola

É só assim que vejo os dias passando

tão bonitos

E aquelas casinhas e prédios minúsculos

abaixo aquele formigueiro fervente andando de um lado para o outro

Mas eu gosto mesmo é das árvores

e das florestas

A seriedade das árvores impassíveis serenas

jamais intempestivas

Ouvem desdenhosas que os leões são os reis da floresta

Você sorriu também

De longe te vejo

cabelo ao vento saltando as cordilheiras

escalando os monumentos

pichando muros

ocupando praças

Gosto das tuas viagens

da tua bocarra vermelha aberta caçando os pingos das chuvas de outono

Tua mente ácida derretendo nas festas

na leitura dos manifestos

ou quando carrega bandeiras como pianos nas costas

Uma vez quando adormeci a vi sentada de perna cruzada

de índio

com o punho fechado no queixo apoiado e pensando na morte

Você me assusta com pensamentos fúnebres

mas entendo que os grandes pensadores são assim

Gostaria de contar-lhe sobre a imortalidade

Mas eu como um Deus louco de um sonho inacabado

não posso intervir em seu livre arbítrio

Então transformo as nuvens em algodão doce

as praças em parquinhos

os monumentos em bonecos animados

A lua já ocupa seu lugar no céu

no meio de bilhões de estrelas ela está solitária como eu

Já você mesmo em silêncio

nunca está sozinha

Encara as estrelas e tenta dizer o indizível

demonstra com o corpo dançante

fazendo mímicas grotescas sob a fonte da juventude

Se decepciona

Grita dizendo o impensado

Volta às ruas pequenina dentro de si

Há quanto tempo não nos falamos

Na verdade nem falamos mais

Nos encaramos em silêncio com o olhar resignado e melancólico

Não há mais o que dizer afinal

 

¿Quién eres?

apaixaodejaoanadarc.jpg

¿Quién eres tú en la noche?

Sin pena, ni papel

En un rato eres la humedad y calor del sur

¿Quién eres tú en la catedral?

Con las piernas desnudas

En el intercambio de disparos, plomo zumbido al oído

¿Quién eres en lo largo de los años?

Llorando en la calle

Cubierta con trapos y dos años de lluvia

¿Qué haces ahí, marchando por sobre las rocas?

Esquivando Iglesias, plazas de guerra y el catre.

Eres fuerza dictatorial, de mujer de hierro, de la punta de la espada.

¿Eres tú o soy yo, quiénes tiemblan de regocijo y dolor?

¿Estaba armada?

Entonces sacó la idea, miró y disparó el tiempo

No más preguntas, señoria.

Para ir e vir

Gustav Klimt_Nu debout dos

 

Para ir à praia de nudismo

Esteja nua

Ao parque

Esteja tua

Aos balancinhos

Esteja de saia de balão rendado

Para ir à feira

Seja santa, ou freira

Sicofanta, ou matreira

Esteja atenta

Agora, para ir até o poema

É caminho longo, de pernada indecisa

Vá desfilando

Esteja cheia e pronta para esvaziar-se

Ou o inverso do anverso.

Mas, para vir aqui

Venha.

Punhal

Eu estava aqui pensando sobre o quanto eu não te escuto.

Contudo, peço que me ouça mais uma vez.

Escute, o punhal de Tutankamon é extraterreste.

É sério, você vai à praia, ao mercado, encara as geleiras da Groelândia,

atravessa o Cabo da Boa Esperança, o Cabo Verde, o Cabo da Roca,

navega sobre os mares frios e os teus dentes batendo entre os lábios roxos.

Sobe as montanhas, olhando atenta para formação sinuosa da vegetação rasteira.

Sabe quando você olha curiosa

e uma sobrancelha fica mais alta e o seu olho esquerdo fica estrábico?

Rasga o deserto, ajoelha na areia e joga os grãos para o alto.

Preste atenção, você não é uma criança, você fuma e nem sonha a noite mais.

Você dorme com a roupa que saiu na rua,

toca as esquinas, suada, suja de areia da praia e do deserto.

Acorda nua.

Anda sobre os trilhos, como nos filmes de velho oeste que assistíamos.

Eu sei que eles não eram filmes de velho oeste,

eu gosto de chamar assim as películas em preto e branco,

mesmo as coloridas da sessão da tarde.

Anda por entre os becos

e toca as pedras incaicas falantes daquele conto que lemos ontem à tarde deitados no jardim.

O mercado está lotado, camelos parados e aqueles panos estendidos por cima das corcovas.

Nem pense em comprar um daqueles brincos arredondados.

Lembras quando tu andavas e giravas como um peão por entre as barracas daquela feirinha?

E não me venha com censura à minha segunda pessoa do singular.

Está certo. Pois bem,

Tanta coisa aconteceu por esses tempos

estes que passam como a areia do deserto, arrancando lascas de pedra calcária,

sempre deixarão algo para trás. Seja uma pirâmide em riste, ou um moral decrescido.

O tempo continua implacável por essas bandas

as novas edificações e as velhas competem entre o charme e a utilidade.

Você não está mais perdida.

Mas, também não encontrou o que estava procurando.

Não está nesta terra, que teus olhos alimentarão com o passar do tempo,

O material de forja do punhal de Tutankamon.

Você se pergunta se ele usou o punhal para cortar as vísceras de um animal,

ou a veia aorta de um pescoço humano.

Tenho para mim que não.

Minha cara, mantenha-se atenta, agora,

O que você cortaria com um punhal de outro mundo?

Esse é o enigma correto, a chave do problema.

Não me importam os grandes trunfos de lendários seres humanos

você de olhos fechados manejando a lâmina sacramentada

intriga-se com o sentido da vida

escrita em hieróglifos indecifráveis.

Como morreu tão cedo?

Teu ímpeto e um jovem faraó

atropelados por uma carruagem.