Sobre o que a vista alcança

zzasas4

A criança, quando criança, tenciona a vista

para o alto confrontando o céu,

em busca de novidades que abarquem seus estímulos

esperançosos de uma vida toda a ser vivida.

 

O adulto, mesmo quando jovem adulto

ou de aparência jovial, é obrigado

a encarar a realidade de frente, enfrentando

os medos, fracassos e decepções, que só

o presentismo é capaz de assentar.

 

O idoso, mesmo o mais espirituoso idoso

tem um olhar, que por vezes, não alcança mais que o chão,

aguentando o peso que é carregar a sabedoria do mundo

e também a prudência de evitar outros famigerados

percalços.

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Conselho

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Para um amigo

 

Sempre fui beduíno sem caravana

O último da fila

último a ser escolhido

O goleiro reserva

 

Sempre velho demais

Novo demais

Baixo demais

Alto demais

 

Sou o deslocado

O que não veio

Que veio

quando todos partiram

O terceiro

 

O amigo do amigo

que não foi convidado

Chegou quem não devia

que não é assunto

Nem assim

nem assado

 

Excluído

azarado

o contrário

Inverso

do anverso

reverso

 

Passei o tempo

ficando para trás

Atrasado nos compromissos

Adiantado nas festinhas infantis

Infantil nas festas senis

Estranho

ultrapassado

 

O corajoso que morre primeiro

medroso que abandona o time

Traidor

derrotado

 

Meu caro amigo

Já não há forças

nem conselhos

Tudo que tentei

teve como resultado

uma porta na cara

fechada com a força

de todas as negativas

 

Minha vida

é o mais profundo

conjunto de más escolhas

e amar é escolha

É preciso de coragem para o amor

 

 

Ame como a teimosia

do derrotado

das portas na cara

Ame com resignação

e um pouco de sorte

O Poder (ou Do Hype)

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Mal vestidos hippies
trapos e trampos, abrigam-se
desesperados como nativos
guarani kaiowas
em coberturas

Com mal falados CEOs
anericanos em Dubai,
agarrados em CO2 chinês,
Apontando o norte
para a próxima cruzada.

Estes senhores feudais
fabricam sonhos guardados
em caixinhas de design digital
para os mal criados hipsters
construírem um mundo melhor,
porém mais caro.

Mal amados líderes discursam
à fome da África.
Abraçados aos príncipes sauditas
e outros Sheiks do petróleo,
fazendo cirandas nas praias
e em saunas de ozônio e nata
temperando o achocolatado
dos mal acabados yuppies.

Que se despedem de sua geração
acionando seguranças
para conter a crescente
onda de gruppies
que cercam os hotéis centrais
de Nova York.

Todas as bandas engajadas
estão contra novos muros de Berlim
cercando os mal paridos Millenials
Que mastigam homo ludens
e cospem lumpen proletariado

Desviam das equações X e Y dos
mal diagramados Hackers Russos
que articulam a deep web.
Pisoteada pela multidão de paquidermes
equilibrados em fios de ouro e diamante

enquanto discutem o tema
da redação do vestibular,
teorias macroeconomicas,
o final do capitulo da novela
e da série de tv.
E fazem críticas sociais fortes.
O hype é real.

Dos túneis

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Há algo a dizer sobre túneis

construção admirável

das mais interessantes

construções humanas

 

Quando entro em um túnel sinto

óbvia esperança

ansiosa e inesgura

de chegar ao outro lado

talvez outro mundo

melhor ou pior

 

(Me instiga o fato

de não poder afirmar

se há um mundo pós túnel

melhor ou pior)

 

De fato há a reconfortante

possibilidade de deixar para trás

as entranhas do passado

erros e acertos ficando

alinhados às luzes penduradas

 

A concavidade do túnel é convidativa

chama continuamente

para dentro

como o útero de minha mãe

Assim o túnel

é cada ser reconstruindo

representação exata

do útero de sua mãe

 

O concreto fazendo curvas

é tão espetacular

que penso:

há algo de natureza

no            concreto

fazendo

                 curvas

 

Gosto do paradoxo de concreto e flores

gosto que sejam

de concreto e aço

ferros retorcidos

madeiras maciças entrincheiradas

no concreto, os túneis.

 

A velocidade dos carros

mecânica e cética

comove como o tédio

de um disco girando

a mais de setenta rotações por minuto

 

Dentro do túnel cabem muitos carros e coisas

No breve caminho

o trajeto de incertezas remete

a tragicomédia cotidiana

monótona do começo ao fim

 

Ouvi dizer que o homem quer

construir túneis maiores

mais longos e agressivos

que o túnel do carpo

soterrando sonhos

atravessando continentes

 

Não gosto da ideia

Megalomania do homem

não me anima muito mais

que a surpresa de uma luz pacata

ao fim do túnel

 

Ainda assim há algo de aventura

no receio de ser alcançado pela vida

Por isso gosto dos túneis

ou ao menos de como fazemos

e nos comportamos nos túneis hoje

 

Gosto dos túneis de hoje

nossa pressa

dos caminhões de gasolina

ziguezagueando como toupeiras

pelos nossos túneis

 

Estes que se iniciam nas serras geladas

e terminam em goles de bebidas ardentes

que começam no espaço

e terminam no tempo

 

Pretentious Synthesis

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How many “what ifs” fit in the clocks?
when we all live in sliding rocks
in a good day we note that life is just that
a mountain of “what ifs” on set

We woke up in ther morning and planned
a entire schedule that made us sad
because the plans even as the diamond stiff
get lost on the tangle about the “what if”

The poor kid knows and the rich guy too
for a good story we start with a clue
and keep up thinking the world is a leaf
that will fly and end up in the ask: “what if?”

“What if” you chose this or that way
the important thing is “what if” you say
unique question to not be eaten by a fox
do not stray from the “what if” box

Just one question to create a entire world
and i just doubt you keep your mind hold
but focus on the propose and not disclaim
when a short “what if” talks in your brain

Distração

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tudo que começo
deixo pela metade
somente um sentimento impotente
resta
a deixar a vida inacabada
e medo de
esquecer virgulas um ponto final
uma conjunção
chaves os óculos máscaras
sobram
distrações
o tempo todo imperfeição
uma vida de atrasos
perdas
dormindo no ponto
errando a mira
calculando mal
esquecendo coisas
ignorando pautas da agenda
o enjaulado padrão
comportamento antipoético

todos nascem mudos e morrem tagarelas
transborda em mim uma imensa falta de palavras
para descrever a falta que me faz

você viu que bela e eterna
a imagem que criei acima?

Receita

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pão
manteiga
não
margarina
queijo
prato
não
prato prato
queijo
prato
alface
credo
tira

alface
salame
molho
mais
outro
mais
outro
Diploma de pós graduação na melhor universidade do país
manteiga
não
margarina
pão
agora
prato
prato prato
aperta
bem
sucesso…

Breve gesta do cotidiano

999px-Claude_Monet,_Impression,_soleil_levant,_1872

 

Dia qualquer acordei
com pensamentos primaveris
cobrindo o denso inverno
do chão murcho de raízes arbóreas.
Aproveitei a ocasião para,
como cão sem rumo
delinear os traços do cotidiano
inocentemente pincelando o dia tenebroso em tons pastéis.

Como não havia sido atingido
por receio de ficar deprimido
rumei firme em direção a praia.
O mar calmo me enganhou,
como confunde os marinheiros de primeira viagem

Na realidade, o danado estava tristonho
e eu na ânsia de minha ideação aflorada
ignorei sua melancolia,
pisoteando a espuma das ondas com o salto de minha felicidade.

Voltei contra a areia
indo em direção as pedras e as folhas
aspirei brevemente flores e frutos transparentes
entre grãos coloridos de areia,
que desciam como ampulhetas fervorosas.
Pensei sorrisos nos rostos de estatuas frias,
assim senti o calor torpe do abraço de sereias frágeis.

Segui de volta ao mar
sonhei uma pequena embarcação
estreita, curta e um rapaz na ponta
com um remo longo e grosso estendido nas águas
flutuando devagar,
ceifando calmamente as ondas
e as almas que rondavam as águas.
Percebi então que me deixei enganar
pelas lágrimas sorumbáticas travestidas de espumas

Tapeados os meus sentidos
pela tristeza intranquila do oceano
pois, preocupado em pintar imagens com os olhos
pontas dos dedos e um pouco de saliva,
arrogante, desconsiderei
a possibilidade de topar com o quadro real e ambulante

Quando notei que a utopia idealizada
estava, não desenhada,
mas, concreta e palpável
ao alcance de meus braços,
decepção consumiu meu ser de ponta a ponta
apreendendo a ruína do apego.
A alegoria que almejei ideal havia morrido em meu entusiasmo.

De nada adiantará

oswaldo-guayasamc3adn-la-edad-de-la-ira-el-grito-i-1983

Você nunca lerá esse poema

Mesmo que deseje muito

e que chegue ao final

já terei jogado fora

assim que acabar de escrevê-lo

 

Mesmo que compreenda

todo o peso das palavras,

seus significados não usuais

e que as desencaixe com a força

de extrair uma pérola da ostra

 

Mesmo que as reencaixe

como quebra-cabeças

de papelão aberto sobre a mesa

da tua consciência, ou da vida

e que reproduza em uma flâmula ensanguentada.

 

Mesmo que interprete melhor

do que eu consiga sequer imaginar.

E que extraia o gosto menos comum das coisas

de nada adiantará.

Pois, esse poema nunca será lido.

 

Irei me desfazer dele e lançarei fora

seus paradigmas e sintagmas.

E no momento do ponto final

da última estrofe, da última palavra

não haverá qualquer força em seu verso.

 

Você irá se iludir desde o começo

Bebendo, comendo e empanturrando-se

de cada sentença e imagem

E reorganizará sua própria imagem e sentença.

De nada adiantará.

 

Amassarei todas as fibras

Rasgarei todos os signos em mil pedaços

Transformarei os conceitos em poeira estelar

Massacrarei o tempo e o espaço da poesia

E farei rápido.

 

Contudo, este poema terá

A morte filosófica, lenta e cautelosa

deixará certos vocábulos a mostra

e poesia no toque e no cheiro

brilhará no fundo de um poço mágico.

 

Será moeda de troca dos rabinos

e ideologia plena dos versados.

Rebanho de inutilidade dos vivos

resenha acrítica e fugaz dos mortos

do nosso tempo.

 

Jamais chegará a ser lido

Pois lançarei mão do fogo eterno

das regras mundanas. Vou execrá-lo perante a lei

e atirá-lo do precipício, queimando

a vida que nem chegou a possuir.

 

Quando você estiver aqui

ansioso, afobado, esfomeado

e exausto, claudicante, humano e falido.

Sob a catarse de um paramédico arrependido

forçando um ressuscitar estrambótico.

 

Se dará conta que você,

tanto quanto esse poema,

atirado do peitoril abstrato

e ainda voando em chamas,

não existe.

 

Talvez, por isso que nunca lerá

o poema que jogarei fora;

Pois jogarei fora o poema

– que assim como você -, leitor

nasceu morto.